Quimbele, no coração do Uíge, tornou-se um símbolo doloroso do abandono institucional. Entre ravinas, estradas esburacadas, falta de serviços essenciais e um isolamento quase total, o município permanece preso num ciclo de esquecimento que ultrapassa três décadas. A situação é tão extrema que até o sinal de telefone, um recurso básico e indispensável na actualidade deixou simplesmente de existir. Para fazer uma chamada, os habitantes precisam deslocar-se até ao município vizinho do Sanza Pombo, porque a antena local, sem manutenção, foi tomada por abelhas. É como se o próprio progresso tivesse desistido de Quimbele.
E, apesar de tudo, o município carrega também um rótulo social que o acompanha há anos: muitos, de fora, chamam os seus habitantes de “confusionistas”. Uma fama que, para quem conhece a realidade de Quimbele, não passa de um reflexo distorcido de frustrações acumuladas, de um povo que luta diariamente contra carências profundas e que, mesmo perante o abandono, continua resiliente. É um rótulo injusto, nascido mais do preconceito do que dos factos porque o verdadeiro “confusionismo” está na forma como o município foi deixado à própria sorte.
No sector económico, Quimbele permanece estagnado. Não existe um único banco. É um contrassenso gritante num município rico em café, fértil e com grande potencial agrícola. Sem instituições financeiras, não há investimentos, não há poupanças, não há incentivos. Há apenas sobrevivência.
As ravinas avançam como feridas abertas na terra, ameaçando vias de acesso, comunidades e até edifícios públicos. Há poucos anos, a própria Administração Municipal esteve à beira de ser engolida. Mesmo assim, nada mudou. As estradas, esburacadas, isolam ainda mais a população e dificultam o transporte de produtos agrícolas que poderiam gerar rendimento para centenas de famílias.
Os serviços sociais seguem a mesma linha de abandono. As escolas funcionam em condições precárias e oferecem opções limitadas: praticamente todos os jovens cursam Ciências Físicas e Biológicas, por falta de alternativas. Os serviços de saúde não respondem às necessidades reais. Não há espaços de lazer e a própria palavra “lazer” parece não ter lugar em Quimbele. A energia eléctrica depende de um único gerador, ligado apenas das 18h às 6h, o que compromete qualquer actividade económica ou comunitária.
Apesar da passagem de vários governadores pelo Uíge, Quimbele continua esquecido. Hoje, sob a governação de José Carvalho da Rocha e com Afonso Manuel à frente da administração local, a população segue à espera de soluções concretas não de promessas. São mais de 30 anos de espera.
Diante de tantas limitações, muitos dos filhos de Quimbele partiram. Migraram para o Uíge sede e para Luanda, fugindo do atraso e procurando dignidade. O município perdeu talentos que poderiam contribuir para o seu desenvolvimento.
No entanto, Quimbele continua de pé. Mesmo onde até o sinal telefónico desistiu, o povo não desistiu. Resiste. Trabalha. Espera ser finalmente visto. A verdadeira reflexão que se impõe não é sobre a “fama” dos seus habitantes, mas sobre o abandono que os gerou.
Quimbele merece mais muito mais.

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